sexta-feira, 31 de julho de 2026

um tributo à vida

para te ouvir prendi o rosto

ao rosto imaginário do sonho.

a ti, aurora:


já não posso reproduzir os teus passos. todas as ruas são corredores interminaveis onde só passa quem não se detem. já não consigo detetar o  teu cheiro nas roupas penduradas e por ti usadas. os livros e discos que compramos repousam impávidos á espera doutros olhos e ouvidos. já não os nossos, num conjunto agora separado e separável. todas as nossas fotografias estão em álbuns ou discos rígidos, e raramente respiram novos dias. mas mesmo assim é nelas que reconheço ainda o teu rosto, a tua forma, o teu corpo, a tua vida captada num segundo, ou melhor, uns míseros segundos da tua longa vida. míseros porque são poucos e não expressam a riqueza do tempo. todo o nosso tempo foi menos que o teu tempo. tu fostes gigante e acrecentaste-me. deste-me. fui completo em ti. toda a imaginação que constantemente me assola, vem alterar a memória e nada do que foi, então, hoje é real. cada segundo vivido nunca mais será reproduzido. o tempo é o momento. ao somatório do tempo chamamos vida mas a vida não é isso mas sim esse momento, irrepetível, o que poderia dizer que vivemos quase eternamente. leio as tuas notas escritas em papéis de ocasião e nelas procuro a tua essência, mas é muito pouco para me alimentar a alma. fica só a dor de, na altura, não ter compreendido a mensagem que imprimias, como palavras sentidas. são agora espanto, inquietação, incompreensão, por não saber a intensidade, a forma, o sentir do momento, a verdadeira razão. as palavras precisavam de ter cheiro, sabor, voz e cor. e dimensão. e espaço. e intensão. os ojectos, mobílias, artefactos, prendas, postais, lembranças, ficarão para além da vontade de quem os deu, ou dão. outros jamais compreenderão o que eles representam, o que significaram e que memórias conteem. dizem que toda a solidão é introspecção, mas eu gostaria mais de estar contigo em comunicação. mas, mesmo assim, por muito que contigo comunicasse - e comuniquei - nunca teria a total dimensão do teu espírito e afeição. cada pessoa é mundo interior, num cosmos sempre em movimento, com por vezes alguma conexão e se ligam por partes e outras não. eu fui essa rara conexão, sem contigo me fundir ou perdermos as nossas raízes, as nossas identidades únicas e pessoais. moldamos as vontades e os saberes á nossa própria realidade, ao prazer e ao viver, ao partilhar e sentir, ao amar. valeu a pena ter-te conhecido. bem-hajas meu bem.

2026/07/31 17.50h




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