terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Pintora

Capítulo I - Infância

Vestida de espanto ela olhava a paisagem como se fosse a primeira vez. Na sua tão curta mas sonhadora vida, tinha crescido em estreita sintonia com a natureza. Ainda as suas pequeninas mãos tinham a aprendizagem dos movimentos e já ela aconchega a terra em volta das flores envazadas,  retirando as velhas folhas e acariciando as pétalas e botões. Achava aquelas cores, únicas, difíceis de igualar ou reter em papel, quando tentava desenhar e colorir as suas páginas, de um caderno, seu companheiro permanente.
Mal sabia ela que as suas capacidades em memória visual, seriam o seu futuro e o prazer duma vida.

E foi nesse dia, tão especial, que o destino quis orientar o seu olhar.

Por debaixo do alpendre frontal à casa onde nasceu, havia uns poucos degraus, de madeira já descorada pelo tempo, a conduzir os seus pequeninos passos, o pé direito em primeiro lugar, juntando-se ao esquerdo e, só depois, avançando de novo para o degrau imediato.
Era quase num saltitar gracioso, como quando brincava à cabra-cega, que o espaço plano se desdobra ao seu andar.

Em frente à casa, havia um pomar.
Árvores de frutos vários, que o seu avô na sapiência da sua já longa vida, foi plantando e enxertando.
Entre a casa e o pomar, um pequeno espaço fora criado para ela brincar.
Um baloiço, feito de carinho, era o seu poiso, como se um pássaro fosse, onde gostava de estar.

Era assim, com os pés em movimentos, suspensos no ar, que os seus sonhos ganhavam asas para voar.

E que voos acabaria por alcançar...

Mas isso virá mais tarde. Por ora, ficaremos pela infância e no deslumbramento desse tempo, na felicidade e no crescimento.


Capítulo II - A velhice

- Avó, avó...!!!
- Vem ver..., depressa...!
- Olha o céu com um arco de cores.
A avó, no seu lento e idoso vagar, deslocou-se para a varanda onde se encontrava a neta.
Quando chegou à vista de um céu de nuvens e raios de sol a espreitar, ainda teve tempo de ver um arco-iris a espairecer.
- Demorasse muito, avó, e as cores que havia estão todas a desaparecer!
- Havias de ver... era uma grande roda partida que nunca vi na minha vida!
A avó disse-lhe então:
- Minha querida Isabel...!
- Quando eu era pequenina, da tua idade, mais ou menos, eu vi essa composição de cores, noutro céu, que era o meu!
- Um dia hei-de levar-te ao País onde a vovó nasceu!
- Conta, conta...vovó...!
- Tem uma luz sem igual, uma paisagem de deslumbrar...!
- O que é isso, avó...!
- Deslumbrar, é ficar encantada, os olhos verem uma coisa bonita, como tu, quando recebes uma nova boneca...!
- Ia a dizer-te: Essa paisagem do paraíso onde cresci, tinha um rio, também, onde aprendi a nadar e se via a olho nu.
- Ao fundo, lá bem distante, há uma serra, muito alta, que em dias de inverno fica prateada, da neve que a cobre...
- Neve..., avó?
- Como aquele quadro, na sala, que pintas-te?
- Sim!
- Porque gostas tanto dele e nunca o quiseste vender?
- Ai, menina... deixa-me respirar, para calmamente conversar...!
- Gosto das tuas perguntas e da tua curiosidade a crescer... mas assim perco o que estava a contar!
- Vamos por partes...!
- A avó gosta muito do quadro, porque ele foi pintado quando, longe daquele lugar, as minhas memórias me deram uma grande saudade de não lá poder estar. Daí nunca o querer vender!
- Mas a avó Helena é tão famosa que podia pintar outro, para aquele lugar!
- Não, minha querida. Aquele é único, como tu és única, não havendo outro igual. Foi pintado num momento especial e esse momento já não o posso repetir.
- Estás a entender?

1 comentário:

  1. 1 comentário:

    Regina Figueiredo28/02/2017, 13:02:00
    Que voos...pergunto...e espero que nos conte. Pintar é, para mim, outra das formas de fazer poesia. Acompanhando...
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